a situação levou-me a sair
de latitudes mais baixas e
a procurar abrigo em latitudes
menos poluídas de gente, que não é...
as rochas desagregadas,
movimentam-se lentamente
ao som dos guizos das cabras...
Pastor !...
pastam meus olhos
e meus ouvidos, buscando
a melhor forma de escrever pedra,
de a perceber dura,
de a sentir vida!...
a cidade é bem mais calma
vista a esta distância.
a sua dureza e a sua esterilidade
agigantam-se, sombrias.
olhos tristes os que só longe
vos conseguem calma.
fachada hipócrita essa,
visão enganosa que vos tolhe a alma.
somos
da ilusão...
os iludidos
por entre constelações
perdidos...
somos no imaginário
dos deuses
os esquecidos
agora eu sei...
que o azul é apenas
um enigma por desvendar
no lugar onde nós sonhamos
tão cinzentos
poeta e artesão
lavrador de opinião
escultor de ideias contrárias
algumas de igual corrente…
arquitecto de cabanas
cadeiras mesas e camas…
e outros mais acessórios
de tamanha serventia…
gaiolas? quando as fazia
e pombais prá passarada
sem saber que a poesia
não se faz numa jornada…
poema em construção
de madeira ou de betão…
e se tiver um ferro à mão
também se constrói mobília
ou se faz dele instrumento
para acompanhar a canção…
de amor que sonha seu rio
a vida por onde corre…
onde nasce e se consome
aquilo porque se morre…
a falta de lucidez que nos mantém
entre o consciente e o inconsciente;
entre o conhecido e o desconhecido…
um estado… que possibilita
a improbabilidade do verbo
no versejar exacto desse tempo…
que nos traz poesia…
entre mim e ti...
o mistério com que fechas todas as portas...
apesar dessa maré cheia... de amor...
sinto-te naufragar em sentimentos muito mais
sombrios...
oferece-me o teu olhar
esse asterismo que reflecte um universo
de ternura…
as tuas carícias são como nuvens de beijos
que antecipam uma precipitação tropical…
o meu corpo arde… deseja que chova!
pressinto-te na última palavra
que a saudade sufoca…
derradeira brisa
que afaga o poema exangue
reflectindo nostalgia…
no rio que emerge do Outono
humedecem as lembranças
daquilo que restou depois do adeus…
o que passou… fez
de nós seres mais silenciosos
e as nossas mãos estenderam-se no vazio…
importa dizer que o silêncio
potencia o grito do rumor que fomos…
no coração da mulher a quem amamos
nasce um tempo novo
a cada momento que passa
enquanto por nós o tempo passa
mais nossa vida é escassa…
fica o tempo mais novo
roubando o tempo ao povo
sorvendo-lhe a juventude
há quem diga que é mentira
que a vida nunca expira
que é essa a sua virtude
renovar, refazer, recriar, renascer!
no entanto
o tempo por fim…
não ao eu, mas sim a mim
diz-me que o tempo…
dá-nos olhos descorados
dá-nos uns rostos lavrados
dá-nos pena… dá-nos pena!
dá-nos, enfim, pouca sorte
dá-nos terra
dá-nos morte
o tempo sorve-nos!
o tempo verga-nos!
o tempo cala-nos!
ò Desolação sem sentido...
não te esquecerei!!!
consente-te meu coração
ausência sem remédio
neste viver como quem morre
a dor deste vazio
terra de girassóis...
onde a paixão duradoura arde ainda [im]pertinente... quaisquer vestígios desse aceso sentir... incendiários desatinos... que nos fazem regressar... rendidos!
ser…
na tua terra nua… o mar!…
na tua boca…
o beijo náufrago
onde afogámos o desejo;
no marulhar húmido desse gesto…
onde nos exilámos…
uma brisa de afagos exalando nostalgia;
onda que envolve o redundante poente
onde nos reencontramos
rumando à poesia
ser como esse deus onde se
renova o ancorar dos corpos náufragos de desejo ser esse pássaro morto à espera de acordar... poema… inscrito num beijo teu ser!... como quem morreu às mãos de um ser divino poeta que se rendeu aos contor[nus] do
amor vivido
procuro uma frase que mereças!...
para que te não ardam
esses olhos lindos
que procuram recordar-me...
busco os enigmas
desse nome que proteges
dos precipícios onde tombam insuficientes
as palavras vertigem onde nos encontramos...
meu coração tombado em terra desconhecida… a tua terra. minha voz murmura a quietude do teu corpo …onde repetidamente se lançam pólenes que brotam de mim… coração fértil... minha terra afirma[Te] de ouro.. como searas onduladas pela brisa suave que sopra de sul…
“Nenhum afecto me expele para além de ti”…
retorno… como se
nunca saído desse paraíso onde nos recrias…
a infinita dimensão do poema…
Latitude maior!
Tecedeira de expirações soberanas…
quero-te!
desde o brilho intenso da madrugada
até à crepuscular tonalidade do abraço…
onde metamorfizam as lembranças
e os quase esquecimentos…
esse tempo mínimo de seres borboleta
que repousa em mim
a nostalgia exacta de sua asas…
essa perfeita geometria que
eterniza a liberdade de poder
voar para o princípio de tudo…
e que suaviza o tempo deposto
no rosto e na memória
tudo em nós se manifesta com grandeza
porque o sermos nada, ajuda
a sermos tudo…
o que o nada pode ser…
:um vazio, ávido de preenchimento
subscrevo a fé
que suporta
esse nosso mundo
de sonhos horizontais…
inscrevo-me…
na realidade convulsa
dessa boca que acende
todo o meu desejo
o murmurar da água
precipita o tempo que se conta
em tua ausência…
que se prolonga; que se estende…
nessas mãos que nunca chegaram
a acalmar o ondulante desejo
onde aportam os barcos desgovernados
da nossa imaginação…
amor que à deriva
não encontra rumo…
e não sabe como largar do embarcadouro
de onde nunca partiram os anseios
que ainda sobrevivem
à consumição da vida...
...saudade?!... em todas as Primaveras... em todas as eras... saudade que mata... todos os lugares... saudade que fica... quando souberes... saudade que abraça... todos os amores... saudade das flores... de todas as cores... saudade do tempo... que nem sempre sorriu... saudade que chega... quando Já partiu!!!...
Ele adormece o grito do silêncio
que agoniza no sangue do ausente.
Poeta mago
ousando combinar o branco e o negro
em versos... de amor
ainda que com a tinta da parede
cheia de nostalgia.
poder despertar de mão dada com outros sonhos...
ancorado às ideias que habitam este lugar de ausências…
despertei!... para o que deixei de ser
naquilo que ainda é vazio!!
há uma saudade
que desenha no horizonte
o perfil inquietante
da ausência
que nos habita…
. Ghost...
. rumor…
. Só...
"as imagens possíveis.../ neste lugar ao sul no meu/ interior nordeste/ uma viagem à minha / geografia interior/ lugar onde sou e que sou, sempre!.../ ainda que em Latitudes ausentes/ buscando uma longitude constante” Mário João